
(lonely silence - by: NerySoul)
Tentava adormecer, quando ouviu um barulho lá fora. Olhou para o relógio na cabeceia de sua cama, 4:50 da manhã! Aquela avenida, apesar de muito movimentada em horário de pico, costumava ser esquisita na madrugada: poucos carros, alguns postes se apagavam, quase ninguém na rua. Permanecia deitada ouvindo os ruídos em baixo de seu prédio, mas não resistiu, foi olhar. Empurrou delicadamente as cortinas brancas para o lado, abriu um pouco a janela e espiou. Lá em baixo, dois rapazes. Pareciam ser novos: 18, 19 anos no máximo! Mas carregavam na face, marcas de uma vida difícil, sofrida, suada. Estavam fuçando o lixo, procuravam tudo que fosse reaproveitado e que lhes rendesse algum trocado para que no final do mês tivessem o que comer.
A garota percebeu que um, tinha se cansado e desistido daquele lixo; caminhava mais a frete colocando toda sua força para subir a ladeira com aquele carrinho pesado, repleto de bugigangas que conseguiu madrugada à fora. O outro não; permanecia estacionado ao lado o lixeiro. Encontrara um caixote, caixa de papelão e uma sacola cheia de roupas - que ela reconheceu ter jogado fora. O rosto do menino parecia feliz, como se tivesse encontrado um tesouro. Ficou ali, tentando organizar dentro do seu carrinho, tudo aquilo que encontrara. Colocava de um lado, caía de outro. Puxava daqui, caía de lá. Mesmo assim, ele não desistiu. Amassou o que podia amassar, separou o que podia separar, pendurou o que podia pendurar e voltou a organizar seu tesouro.
Nesse momento, a garota voltou-se ao seu quarto. Olhou sua cortina, feita de tecido caro. Sua cama confortável, a decoração toda angelical, o armário cheio de roupas novas, sua coleção de livro, seu computador, sua vitrola, sua T.V., o vídeo game... Olhou novamente garoto e começou a chorar.
Chorou por pena, chorou por raiva, chorou por culpa, chorou por sentir-se incapaz de mudar a vida daquele menino. Sentiu nojo de seu país! Ficou imaginando a vida dele, as inúmeras coisas que abriu mão para estar ali: buscado o pão, para alimentar toda sua família. Que país é esse que não dá oportunidades para seus jovens. Que gasta bilhões para sediar uma Copa do Mundo, enquanto sua população está fora da escola, morre de fome ou vêem na criminalidade a única esperança de um futuro ‘promissor’.
Continuava chorando, calada, espiando pela janela, quando o garoto terminou de arrumar seu carrinho e, com dificuldade, começou a empurrá-lo ladeira acima. Nesse mesmo instante, ouviu a sirene da polícia. Uma viatura vinha a toda velocidade, parou quando viu o menino.
Desceram quatro e o abordaram de forma rude e violenta. Antes mesmo que o garoto pudesse fala qualquer coisa, foi jogado ao chão e obrigado a colocar às mãos sobre a cabeça. Um policial revistava o garoto que chorava; outros dois bagunçavam seu carrinho fingindo procurar algo suspeito. O quarto permaneceu imóvel, desceu apenas para fumar seu malboro vermelho. Enquanto isso, na outra esquina, Maria – que levantara cedo para pegar seu primeiro ônibus, já lotado, rumo ao trabalho - reage a um assalto e leva um tiro na barriga. Os policiais ouvem o disparo e saem sem pedir desculpas ao garoto. Chegam até a mulher que está estendida ao chão, mas é tarde demais pra ela. 'mais uma Maria morta' pensa o tenente. 'Mais uma criança sem mãe' pensa o visinho que acordara com o barulho.
A uma esquina dalí, o garoto volta a arrumar seu carrinho com dificuldades, derramando algumas lágrimas e várias gotas de suor. A menina, cansada daquilo, fecha a janela e a cortina, liga o ar condicionado, põem a vitrola pra funcionar, deita-se na cama confortável, fecha os olhos e tenta domir. "Amanhã será um novo dia", ela sonha.



